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2 Nabos na Púcara

Dois autênticos nabos que resolveram criar isto para vir falar de coisas, cenas e algo mais.

02
Set16

O domingo da festa

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 Agosto é mês de férias e um dos destinos obrigatórios é a ida à "terra" para as festas da aldeia.

Na “nossa” aldeia, a festa vai de sexta a segunda, mas hoje vou falar apenas do domingo, que é o dia dedicado à parte religiosa.

 

8:30h – Chegada da Banda Filarmónica, toque de Alvorada e desfile pelas ruas da aldeia.

A banda filarmónica contratada de um ano para o outro e que é a mesma pelo menos há 15 anos, percorre a aldeia tocando a alvorada, para anunciar que daí a três horas irá começar a missa. À frente vem o Mordomo deste ano e atrás os velhos que acordam às 5h e já não conseguem dormir e aqueles que aquela hora de iam deitar mas que sendo assim já não vale a pena, porque a festa continua e não se pode perder nada. Até chegar à capela, a banda para em cerca de 8 ou 9 “lojas” (local situado na parte de baixo das casas onde antigamente guardavam o gado e onde hoje servem de arrecadação ou adega), e em todas elas, todos os elementos da banda, tenham eles 12 ou 120 anos, provam a jeropiga (quase sempre boa) e o vinho caseiro (que o proprietário diz ser melhor ainda que o do ano passado, mas que para a maioria continua a não prestar para nada). Por volta das 10:30h, terminam o percurso de cerca de 600m e conseguem chegar ao largo da Capela.

 

11h – Missa Solene

Assim que soam as 11 badaladas no altifalante situado na torre da capela, começa a missa ao ar livre. Toda a aldeia está presente. Temos elas com o seu melhor traje e os pés a “guinchar” por terem de caber no sapato bicudo e de salto bem alto e fino e que parece ser 2 números abaixo do ideal. Eles também vão bem arranjados. Muitos nem foram à cama e passaram só por casa para trocar de roupa e colocar os óculos de sol para não se notar as olheiras, os sapatos e o hálito denunciam que muita cerveja escorreu pela goela, e fora dela, abaixo. Os putos também vão vestidos a preceito, mas ao fim de 5 minutos já estão todos desarranjados e as mangas da camisa servem para limpar o ranho como é normal e só as mães se zangam com isso.

Apenas metade dos músicos da banda é necessário para acompanhar a missa, por isso os elementos mais novos são dispensados e aproveitam, ou para namorar uns com os outros ou para fumar um cigarro às escondidas nas traseiras da capela.

Terminada a missa, dá-se início à procissão. Atrás do padre e da banda, seguem quatro andores, cada um carregado por 4 pessoas que se oferecem ou que são convidadas para tal. Dois andores conseguem permanecer equilibrados ao longo de todo o percurso, mas há sempre dois em que isso não acontece. Um é o que é composto apenas por senhoras, porque para além da diferença de estaturas, temos a que leva saltos altos no início da procissão, mas que a meio tem que se descalçar porque nem N. Senhora a ajuda a suportar as dores nos joanetes. O outro vai desequilibrado de principio ao fim porque este ano, o “coxo” insistiu que tinha que carregar o andor porque num dia de bebedeira fez uma promessa à Santa.

 

12h – Leilão de fogaças

Terminada a procissão, dá-se lugar ao leilão de fogaças (tabuleiros que algumas pessoas levam com bens alimentares para ser leiloado e onde o valor desse leilão reverte para a “Santa”).

Aqui temos dois tipos de participantes. Aqueles que tradicionalmente vão sempre e que fazem deste momento como se de um ato cívico se tratasse na ajuda à sua povoação e o “emigrante”.

O emigrante foi obrigado a emigrar por não conseguir cá um emprego em condições. Continua sem ter um trabalho em condições, mas recebe em francos e isso chega para que consiga vir à "terra" num Audi ou BMW onde cola o autocolante da F.P.F - Federação Portuguesa de Futebol, pensando ser o símbolo das quinas da nossa bandeira, mas esquecem-se de retirar o autocolante da rent-a-car. Os filhos não sabem falar português e por isso não conseguem brincar com as outras crianças, nem comunicar com os avós, que morrem de saudades por os ver apenas uma vez por ano. O “emigrante” é também fácil de identificar por pagar qualquer coisa sempre com uma nota de 50€. Seja um café ou uma cerveja.

 

17h – Concerto da Banda Filarmónica

Por volta das 17h, sem grande história para contar, é altura do concerto da banda filarmónica no largo da aldeia. O reportório é o mesmo dos anos anteriores. Os putos vão para o rio, os adultos aproveitam para dormir um pouco para curar a ressaca porque sabem que se aproxima mais uma noite de copos e folia e na assistência apenas restam os velhos que devido à idade e à falta de memória, vibram como se estivessem a assistir aquilo pela primeira vez, e os que se lembram são os que já não conseguem mover-se sem a ajuda de terceiros, porque se pudessem fugiam dali também.

 

18:30h – Despedida da Banda com saudação aos novos Mordomos.

Às 18:30h a banda vai a casa do Mordomo, seguida pela malta mais rija, ou seja, pelos que ainda se aguentam de pé, comer e beber (o que ainda resta) e segue até casa do Mordomo do próximo ano para o saudar e comer e beber.

Dali segue tudo para casa do Ti João (nome fictício), cuja casa é na entrada da aldeia, onde vão, imaginem, comer e beber e despedir-se da banda.

Com a banda de abalada, este ritual de domingo não pode encerrar sem o lançamento de foguetes por parte do Ti João, contrariando todas as indicações de bombeiros e proteção civil, porque “isso é tudo uma cambada de maricas, e tradição é tradição e enquanto eu for vivo, é para manter”. Nesta fase há os putos que choram, um ou dois cães que desata a fugir e que só regressa na manhã seguinte e o “Manel Maluco” que se atira para debaixo da Ford Transit, aos gritos, porque veio traumatizado do Ultramar e pensa que ainda lá está.

 

Assim termina o “Domingo da festa”, com a certeza que para o ano tudo será igual, e é tão bom que assim seja.

#sejamfelizes

 

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